Instalar ar-condicionado sem bomba de vácuo deixa ar e umidade dentro do circuito de refrigeração, o que reduz o rendimento, encurta a vida do compressor e dá ao fabricante motivo para negar a garantia. O vácuo não é capricho de instalador: é o que retira do circuito aquilo que o gás refrigerante e o óleo não toleram.

O que o vácuo faz dentro do circuito

O circuito de um split é fechado e só deve conter refrigerante e óleo. Quando o instalador conecta a unidade interna à externa, as tubulações e a serpentina da evaporadora estão cheias de ar comum, com oxigênio, nitrogênio e vapor de água.

A bomba de vácuo puxa esse ar e a umidade até uma pressão muito baixa. Em pressão baixa, a água ferve em temperatura ambiente e sai como vapor. É assim que se seca o circuito por dentro. Sem vácuo, esse conteúdo fica trancado lá, e o gás entra por cima.

Umidade e óleo do compressor

O compressor é lubrificado por óleo que circula junto com o refrigerante. Nos aparelhos modernos, é um óleo sintético que absorve umidade com facilidade. Quando isso acontece, ele reage com o refrigerante e forma compostos ácidos.

Esses ácidos atacam o verniz do bobinado do motor, os rolamentos e as válvulas. Além disso, a umidade pode congelar na saída da válvula de expansão ou no tubo capilar, onde a pressão cai bruscamente, e criar uma restrição que derruba o rendimento. O resultado típico é um aparelho que gela menos, compressor sobreaquecendo e falha depois de meses ou anos, longe da data da instalação, o que dificulta ligar a causa ao serviço mal feito.

O ar não condensável, o oxigênio e o nitrogênio, também prejudica: sobe a pressão de alta, o compressor trabalha mais quente e o consumo de energia aumenta.

Tabela: o que muda com e sem vácuo

Aspecto Instalação com vácuo Instalação sem vácuo
Umidade no circuito Retirada Fica no sistema
Ar e gases não condensáveis Retirados Ficam, elevam a pressão
Óleo do compressor Protegido Absorve umidade e forma ácido
Desempenho Conforme projeto Menor rendimento, consumo maior
Vida do compressor Esperada pelo fabricante Tende a diminuir
Garantia Preservada, com o procedimento do manual Risco de recusa
Gás refrigerante Não se perde na instalação Parte é expulsa para limpar o ar

O atalho: expulsar o ar com o próprio gás

Muita instalação "sem bomba" usa o método de purga: o instalador abre levemente o registro da condensadora e deixa sair um pouco de gás pela conexão da unidade interna, empurrando o ar para fora. Parece funcionar, e como o aparelho gela logo depois, o cliente nem percebe.

Os problemas estão escondidos. Esse método não remove a umidade, só parte do ar. Gasta refrigerante, que sai para a atmosfera, e a carga que vinha de fábrica fica abaixo do correto. Em aparelhos com R32, soma-se o fato de ele ser levemente inflamável, e liberar gás no ambiente de instalação é uma prática que fabricantes desaconselham.

Por isso, instalar "sem perder o gás" do jeito certo é o contrário do atalho: o vácuo feito antes de abrir os registros evita desperdício, porque o gás que vem na condensadora só é liberado depois que o circuito estiver seco.

Como é uma instalação correta

Um instalador que segue o procedimento do manual faz, em linhas gerais:

  1. Fixa e alinha as unidades, com tubulação nova, sem dobras bruscas e com os flares feitos com ferramenta adequada.
  2. Conecta as tubulações às duas unidades, com os registros da condensadora ainda fechados.
  3. Liga o manifold à válvula de serviço e à bomba de vácuo.
  4. Faz o vácuo até o vacuômetro atingir o valor que o fabricante indica, e deixa a bomba rodar por tempo suficiente. O manual do aparelho traz o valor, e é comum buscar números bem baixos, na casa de centenas de mícrons.
  5. Fecha o manifold e espera. Se o vácuo se perde, a leitura sobe: subida contínua indica vazamento, e subida que para num patamar indica umidade ainda no circuito; é preciso resolver antes de seguir.
  6. Abre os registros da condensadora, liberando o gás para o circuito.
  7. Verifica vazamentos nas uniões, com espuma de sabão ou detector.
  8. Testa o aparelho medindo pressões e temperaturas e confirmando que gela e drena corretamente.

O tempo gasto com o vácuo varia com o comprimento da tubulação e a umidade do ambiente. Dezenas de minutos são comuns. Quem fala em fazer tudo em dez minutos provavelmente pulou etapas.

O que o fabricante exige

Os manuais de instalação dos split descrevem a evacuação com bomba de vácuo como etapa obrigatória e trazem a sequência. Muitos termos de garantia condicionam a cobertura a uma instalação feita conforme o manual, por profissional capacitado. Se o compressor falha e a inspeção mostra contaminação, o fabricante pode alegar instalação inadequada.

Não existe uma regra única para todas as marcas. Leia o manual e o termo de garantia do seu modelo e guarde o comprovante de instalação.

Como verificar se foi feito

Você não precisa entender de refrigeração para checar:

  • Acompanhe o serviço. Veja se há bomba de vácuo e manifold com manômetros no chão ou na bancada.
  • Procure o vacuômetro. É um instrumento digital pequeno ligado ao manifold ou à bomba. Peça que mostre a leitura caindo e estabilizando.
  • Pergunte o tempo. Peça para o instalador dizer quanto tempo deixou a bomba rodando e até que valor chegou.
  • Observe se os registros foram abertos só depois do vácuo.
  • Peça o registro por escrito com a descrição das etapas e o teste de vazamento.

Instalador de confiança faz isso sem ficar incomodado: é a rotina dele.

Quando contratar e o que perguntar

Se a ideia era instalar por conta própria ou contratar o mais barato, vale pesar o risco: um compressor novo pode custar uma fração relevante do preço de um aparelho. Exija instalador com bomba de vácuo e manifold para não perder a garantia.

Na hora de contratar, pergunte:

  1. Você usa bomba de vácuo e vacuômetro em toda instalação?
  2. Faz teste de vazamento antes de abrir os registros?
  3. Qual é a garantia do serviço, por escrito?
  4. A tubulação é nova, com isolamento térmico e flare feito com ferramenta?
  5. O serviço inclui dreno com caimento correto e suporte da condensadora?

Desconfie de orçamento muito abaixo do mercado, de quem diz que "o gás já vem de fábrica, não precisa de vácuo" e de quem não mostra os equipamentos.

Sinais de que a instalação pode ter falhado

Algumas pistas aparecem meses depois: o aparelho gela menos do que no começo, o consumo de energia sobe, a condensadora esquenta demais e o compressor desarma por proteção, ou há gelo recorrente na tubulação. Esses sinais também têm outras causas, mas, num aparelho recente com instalação sem comprovação do vácuo, vale chamar um técnico para medir pressões e avaliar o circuito, e guardar a avaliação por escrito.